eu tenho o agora e isso é tudo

Eu to nova em folha e pronta pra sair
não venha me ver
to indo beber a vida
com a sede dos que não têm amanhã

uma hora amo de novo, mas por hora avisa que não vou

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cotidiano

é esse marasmo
do beijo esquecido
do abraço sem toque
signo sem significado
você passa pela vida e apenas passa
você é todo dia e faz de cada dia o mesmo dia
você não acontece
mas acontece
que no meu coração é inverno
(to gelada feito sua cerveja)
mas acontece…
e eu aconteço todo dia quando quebro a promessa
e volto a te amar

do contra ou estudo sobre eu e eu mesma

Sabe aquela mania minha de problema
to por fora

Quero mais a vitrola da minha avó
usar ombreiras
fumar camelos
ver o céu
cirandiar por aí

subir a catedral de joelhos
chorar o hino
vestido
casa
comida
lavada

não me importa

me ama vem que hoje faço a janta
coloco avental e te deixo por cima
goza que gozo no seu gozo

deixa pra lá

aquela ideia de se preocupar
to aqui, baby, pra gerar

chchchchchchchchchchoque cultural
to legal, tchau

Predador

Os caminhos da vida são misteriosos
e nós apenas pontos nessa imensidão
Azul, azul, azul e branca
como um vestido de verão

O dia parece que não começou
e já se foi mais da metade
Caio feito madeira cortada
na cama ainda desarrumada

Bem fundo nas torres de marfim
a água quente da estação
toca-me os tornozelos
criaturas de cristal
chamam-me para um passeio

Nado, nado, nado
e então, você chega
para me lembrar
que não sei nadar

Abro os olhos
o teto branco me encara
Fecho-os
a sereia ainda sorri

o telefone toca
ignoro para ver se passa
mas ele não se aflinge

Eu estou do outro lado do mundo
Sou pura, instável e paralela
e você tenta me cortar

Posso ser apenas ossos e palavras
mas sou verdadeira demais
para seus músculos de cientista

A doença me sobe a boca
rodopiando com meus nervos
desejo que se contagie

Mas você continua buscando a fórmula
para minhas palavras disformes
Eu só quero permanecer horizontal

O gato conhece a língua dos pássaros

Abismo

O mar amarelo na parede
perfurado pela cúpula escura
do crepúsculo atrasado
no horário de verão

A sombra corta o rosto
dos olhos hipnotizados
Coringas âmbar
invadem minha paisagem

Quero abraçar o mundo
e ser penetrada por ele
até que essa sensação de vômito
entre em comunhão com o Sol

Deus arranca minhas roupas
e devora meu corpo
a noite desfalece
feito minhas mãos

E eu sou a Grande mãe
recebendo seus filhos
do alto deste observatório
o cigarro é minha tocha
o banco meu altar
seus olhares me consagram
estou grávida do universo!