Na hora

Não sei a hora
Não preciso saber a hora.
A hora não faz café,
a hora não toma banho,
não manda e-mail ou bebe vinho.
A hora não gosta de vinho.
A hora pede.
A hora anseia
(quase nunca quer).
A hora gosta do agora,
só pra mandar.
A hora é conceitual
não consensual
(a hora não tem nada de sensual).
A hora não é a mesma,
dura o que se deixa.
A hora não sabe, mas quero mais que ela.
A hora não tem culpa, mas não pertenço a ela.
A hora só faz a gente se perder.

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cotidiano

é esse marasmo
do beijo esquecido
do abraço sem toque
signo sem significado
você passa pela vida e apenas passa
você é todo dia e faz de cada dia o mesmo dia
você não acontece
mas acontece
que no meu coração é inverno
(to gelada feito sua cerveja)
mas acontece…
e eu aconteço todo dia quando quebro a promessa
e volto a te amar

do contra ou estudo sobre eu e eu mesma

Sabe aquela mania minha de problema
to por fora

Quero mais a vitrola da minha avó
usar ombreiras
fumar camelos
ver o céu
cirandiar por aí

subir a catedral de joelhos
chorar o hino
vestido
casa
comida
lavada

não me importa

me ama vem que hoje faço a janta
coloco avental e te deixo por cima
goza que gozo no seu gozo

deixa pra lá

aquela ideia de se preocupar
to aqui, baby, pra gerar

chchchchchchchchchchoque cultural
to legal, tchau

Abismo

O mar amarelo na parede
perfurado pela cúpula escura
do crepúsculo atrasado
no horário de verão

A sombra corta o rosto
dos olhos hipnotizados
Coringas âmbar
invadem minha paisagem

Quero abraçar o mundo
e ser penetrada por ele
até que essa sensação de vômito
entre em comunhão com o Sol

Deus arranca minhas roupas
e devora meu corpo
a noite desfalece
feito minhas mãos

E eu sou a Grande mãe
recebendo seus filhos
do alto deste observatório
o cigarro é minha tocha
o banco meu altar
seus olhares me consagram
estou grávida do universo!