Moving in

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[Não quero
“casar com você”
quero
amar com você
até partir(mos)]

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Atualidades de tempos passados

E continua o desejo de parar pra descer,
descer do mundo, descer dessa cidade
i am awake in the place where women die
eu estou acordada no MUNDO onde mulheres morrem,
são torturadas, espancadas, desfiguradas, encarceradas,
estupradas, silenciadas
e querem dizer: não abortem, esse direito não é seu
nenhum direito é seu
nenhum direito é nosso
nenhum direito é garantido
pílula do dia seguinte?
se a camisinha estourar o problema é seu
se for estuprada o problema é seu
se morrer abortando o problema é seu
tá entendendo?
O PROBLEMA É SEU
seu corpo não importa
mulher que morre em aborto
é mulher pobre
melhor que higieniza o mundo
e o homem, não estupra
não aborta, não violenta
só força, some e dá o que merece
o mal do mundo:
A cobra, Eva, Lilith, eu, ela,
aquela lá
pagando eternamente pelo pecado
de ser mulher

Na hora

Não sei a hora
Não preciso saber a hora.
A hora não faz café,
a hora não toma banho,
não manda e-mail ou bebe vinho.
A hora não gosta de vinho.
A hora pede.
A hora anseia
(quase nunca quer).
A hora gosta do agora,
só pra mandar.
A hora é conceitual
não consensual
(a hora não tem nada de sensual).
A hora não é a mesma,
dura o que se deixa.
A hora não sabe, mas quero mais que ela.
A hora não tem culpa, mas não pertenço a ela.
A hora só faz a gente se perder.

Sobre padrões de beleza e (não) conseguir se livrar deles

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Desde o final da minha adolescência que me interesso explicitamente pelo feminismo, claro que durante esse tempo eu fui descobrindo a quantidade de coisas essa palavrinha significa, aproximei-me de várias vertentes (mesmo sem saber que passava por elas), e só com o estudo e a aproximação de outras companheiras é que me encontrei no feminismo de esquerda. Precisei estudar muito para construir a minha visão sobre as várias perspectivas do movimento e para começar a perceber como o patriarcado age na sociedade. Obviamente, não é algo instantâneo, é necessário muita reflexão e um olhar atento, posto que essas construções antecedem a nossa vinda ao mundo e fomos todas criadas nisso. Não estou dizendo que para ser feministas todas têm de estudar, até porque essa afirmação seria potencialmente excludente, para perceber a opressão do machismo basta observar rapidamente a sociedade, mas existem aquelas, e eu me incluo aí, que dentro da organização da sociedade capitalista têm mais acesso a esse capital intelectual e, por isso, considero quase uma obrigação nos aprofundarmos nos estudos existentes, porque essa é uma importante forma de compreendermos e assim contribuirmos para a construção de uma sociedade menos opressora.

Estou dando toda essa volta para entrar em um dos pontos que aprendi durante as minhas reflexões junto a uma das coisas que percebi sobre mim nisso tudo, decidi falar sobre isso porque certamente não sou a única feminista a me sentir assim e como dialogar com as outras mulheres, permitir ajudar e ser ajudada, é uma das principais maneiras para se empoderar na nossa sociedade patriarcal, gostaria de fazer aqui meu relato/desabafo. Vamos lá: eu sempre tive uma tendência a problemas alimentares. Na adolescência eu acreditei fielmente que estava gorda (e a minha cabeça pensava: logo, feia), quando estava extremamente magra. Então, eu quase não comia e cheguei a vomitar algumas (muitas) vezes depois de comer. Eu não me achava bonita e queria compensar isso sendo magra, pois achava que essa era uma maneira indiscutível de ser bonita, ou melhor, colocaram isso na minha cabeça. Acontece que eu já era extremamente magra. Acredito que foi nessa época que desenvolvi uma sensibilidade no estômago que me faz muito mal até hoje. Com o passar do tempo, comecei a aceitar mais o meu corpo e a aprender a me achar bonita, mas sinto que volte e meia voltava uma insegurança que eu não sabia da onde vinha.

Foi mais ou menos por aí que comecei a ter um contato real com o feminismo e a aprender mais sobre isso tudo. Foi um dos momentos reveladores em que descobri como a força da construção social da beleza encarcera as mulheres numa sociedade em que somos vistas como produtos para consumo, quando a apreciação estética se torna uma forma de controlar os corpos. O mais estranho, ou assustador, foi perceber a intensidade disso na minha vida e de mais muitas outras mulheres, além de algo presente em inúmeros discursos, pois comecei a ter dimensão do quão difícil é mudar algo que está tão enraizado em todxs nós. A discussão, a bem da verdade, vai para além do ser magra ou não, faz-nos colocar em questão diversos pontos que levam a extensas reflexões, como: o que é “ser bonita”? Por que temos de perseguir a beleza? A beleza pode ser considerada apenas pelo ponto de vista do outro? Independe de sacrifícios? Por que ser magra está tão associado à beleza atualmente? Até que ponto é uma escolha? Até que ponto temos uma escolha?

Não pretendo aqui responder a nada, muito menos a essas questões que podem ser extremamente complexas, esse não é um texto que se pretende revelador, que pretende sanar alguma lacuna com algum tipo de solução milagrosa, mas um texto voltado para o compartilhamento de uma experiência. Enfim, graças ao feminismo consegui diminuir muito a minha fixação com isso, em comparação à época em que era algo que não saía da minha cabeça e me fazia muito mal. Por muito tempo não pensei, não me incomodava mais essa questão.

Continuei aprendendo muito na minha militância, criticando arduamente os padrões de beleza, mudei a minha forma de percebê-los, de perceber os outros e a sua beleza. No entanto, esses dias me peguei olhando no espelho, pensando muito sobre o meu corpo e me sentindo mal, eu engordei, obviamente não é a primeira vez que isso acontece, porém eu percebi lá, enquanto me olhava, que me senti feia por isso. E então eu me senti hipócrita e, em seguida, impotente. Vi mais uma vez a força da opressão sobre os nossos corpos, como ela não tem limites e se predispõe a fazer com que todas as mulheres se sintam mal. Porque os padrões de beleza funcionam como bestas insaciáveis que colocaram na nossa cabeça que devemos perseguir ainda que suguem tudo de nós. Percebi que ser feminista não me tornou imune, que ser feminista não me fez o tempo todo fora de todos os paradigmas opressores do patriarcado e feliz com isso. Lembrei, então, daquela menina de 15 anos que fez inúmeras coisas contra si por causa disso, pensei em todas as mulheres que vivem nisso e decidi transformar o mal-estar que senti em palavras e dividi-las com o mundo, para tentar criar algo bom com isso, para voltar ao espelho, para que um dia todas possam voltar ao espelho, e lembrar que a única beleza que importa é a liberdade, a aceitação de si.

Pela manhã

acordei antes da hora
Sol nascia
já não era Tempo
pra pensar no ontem
que me-não-se-acaba

queriam-me insone
fui só sonhos
queriam-me sono
despertei alto
e aguda

pássaro na janela
desafinado
excitado
Fêmea

Gata manhosa
no cio
de dezembro a dezembro
quero colo

menina sem nexo
avante